Porque o amor pertence à insuspeitada categoria das coisas imprevisíveis
Um desvario. É disso que se trata. O amor é uma sandice. Um desvio do
caminho de dor em que a vida mergulha de quando em vez. É isso, sim. No
meio de tanta estupidez e medo e indiferença, vem alguém tomado de
coragem, declara seu amor em voz alta e sai sorrindo um parque de
diversões e seus carrosséis, rodas gigantes, montanhas russas.
O amor é a maior ousadia da vida. É quando ela, abusada que só,
ignora a morte à espreita, realiza, avança, provoca, acontece. Quem ama
quer acordar mais cedo e viver até tarde. Amar é se dar conta de que
estamos vivos. É a intenção sagrada que nos põe sobre os pés de manhã, a
saudade honesta, o trabalho de cada dia. É a noite, a lua e o susto de
não estar mais só.
Amar é um desacato à autoridade dos pessimistas, mal amados, donos da
verdade, descrentes da felicidade, vigias da vida alheia e toda torcida
contra. Quem ama desobedece à lógica do um contra o outro, a fórmula do
cada um por si, o vício odioso do confronto.
Sentir amor é o absoluto inesperado em tempos de pré-disposição para a
maldade. Quem tem bravura para dar e receber amor desafia a danação, a
selvageria e a morte. Tomados de ímpeto amoroso, os amantes esquecem que
um dia também vão morrer. E quando por acaso se lembram, repousa mansa
em sua lembrança a certeza de que ao morrerem permanecerão vivos do
outro lado, trabalhando pela eternidade de seu amor.
Tem gente que escolhe sofrer, penar, regar sentimentos daninhos,
cultivar pragas que desgraçam o roçado aos poucos, em silêncio. Eu
escolho viver. E o amor há de ser isso mesmo, quem sabe? O ofício de
cuidar da vida. De plantas, flores, sonhos, pessoas, amar é cuidar bem
da vida. Limpar-lhe as folhas, molhar a terra, fortalecer as raízes.
Proteger, respeitar, servir. Florescer.
Noite dessas, do meio de sua solidão, alguém me escolheu para amar.
Veio, tomou meu coração nas mãos e eu entreguei-lhe o resto. Agora
seguimos juntos, preparando nossa horta, planeando nossa obra. Rompendo
firmes nossos transtornos. Construindo possibilidades, trabalhando pela
vida que é boa agora e há de ser melhor amanhã.
Porque, afinal, quem ama não tem medo de trabalhar pelo amor. E o amor dá trabalho! Viver e amar dão muito, muito trabalho.
André J. Gomes
Revista Bula


Comentários
Postar um comentário